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Desfazendo o mito do livro como obrigação


Plano de Aula do Filme Clandestina Felicidade | Ficção | De Beto Normal, Marcelo Gomes | 1998 | 15 min | PE


Existe um tipo de amor que após tomar conta de nós, não nos abandona jamais. Passam-se anos e ele fica cada vez mais intenso, ele resiste ao tempo, as alegrias, as tristezas, a cada passagem da vida, ele está sempre lá. É um relacionamento pleno, basta permitir-se e ele flui. Leva-nos para paisagens distantes, transforma-nos em princesas, vilões, bruxas, monstros, estrangeiros, enquanto continuamos os mesmos homens e mulheres, velhos e crianças. Mas afinal, quem é esse amante tão poderoso?
Falamos dos livros, amantes
sinceros e companheiros. Basta abri-los para mostrar-nos um mundo todo.
Temos pena das crianças e adolescentes que não descobrem esse tipo de amor, que poderíamos chamar de eterno. Que pena dos meninos e meninas que não
descobrem o belo e incerto de uma boa história de suspense, que não se emocionam com a trajetória de uma personagem, que não se assombram com uma boa história de terror, que não viajam pelo passado e pelo futuro...
Às vezes esse amor nasce em família, no entanto quando isso não ocorre, ele necessita ser descoberto na escola. É preciso permitir que os alunos se enamorem, "fiquem" como é a linguagem atual entre os jovens. Mas como todo destino de um verbo de ligação, que esse "ficar", permaneça!
É preciso estimular os ouvidos com boas histórias e, como somos seres inteligentes que somos, desejamos sempre mais do que é bom. O livro não pode ser apresentado como um elemento de coerção pela nota. Essa estratégia de aproximação da literatura acaba atingindo o objetivo oposto: os alunos olham o livro como uma obrigação. E ai, perde-se a magia!
É preciso que em cada professor exista uma Sherazade, que, a cada dia, encanta e ganha mais um dia de vida. Precisamos apresentar a fonte que há em cada biblioteca, como um oásis no
deserto.
O curta refere-se ao texto Felicidade Clandestina, de Clarice Lispector.
É preciso que nossos alunos sejam como a personagem principal do filme Clandestina Felicidade. Que carreguem seus livros como amantes com o mais puro êxtase!
Como a história gira em torno da busca pelo livro Reinações de Narizinho, que tal despertar esse mesmo desejo em seus alunos? Que tal estimulá-los inicialmente com o filme
Clandestina Felicidade e depois com a sedução da obra de Monteiro Lobato? Assim a felicidade deixa de ser clandestina para ser passageira constante!




Objetivos
- Discutir as semelhanças e diferenças de um texto e adaptações para cinema ou teatro
- Produzir uma adaptação de um texto para a linguagem teatral

Situação Didática
Situações didáticas sugeridas para o Ensino Fundamental I:

==> Fazer uma roda de conversa com os alunos com o tema: Quem gosta de ler? Conversar com os alunos sobre o que gostam de ler e se não lêem, o por quê. O professor pode trazer um pouco de sua própria infância, o que gostava de ler, inclusive, se possível, trazer um livro que leu quando criança.
==> Propor que assistam ao filme, antecipando que o mesmo conta um episódio da vida de uma menina que adorava ler. Estimular que os alunos imaginem o que pode ter acontecido com a garota. Pode-se anotar as diferentes hipóteses.
==> Assistir ao filme
==> Retomar as hipóteses e discutir o conteúdo do filme, as impressões, opiniões dos alunos.
==> Propor a leitura do texto de Clarice Lispector
==> Discutir com os alunos as semelhanças e diferenças do texto e do filme. Discutir que há muitas adaptações de livros que se transformam em filmes. Em grupo os alunos podem fazer uma lista de filmes que eles conhecem que foram adaptações de livros
==> Socializar as listas. Para a socialização cada grupo pode eleger um representante que irá apresentar para a classe a produção do grupo
==> Propor que leiam o livro que a personagem tanto ansiou ler: Reinações de Narizinho
==> Escolher democraticamente um capítulo para representar
==> Construir coletivamente a adaptação de uma narração para peça teatral
==> Discutir com os alunos os elementos que compõem um texto.
==> Apresentação da produção coletiva


Situações didáticas sugeridas para o Ensino Fundamental II: ==> Apresentar o filme Felicidade Clandestina e comparar com o texto de Clarice Lispector
==> Discutir os elementos textuais que caracterizam um texto e um roteiro de filme, a relação de texto-imagem, etc.

==> Se a turma tiver mais que 12 anos, passar "Saneamento Básico, o filme " que mostra a dificuldade de um grupo em transformar um roteiro produzido por eles mesmo em um filme.
==> Propor que os alunos se dividam me equipes de: roteiristas, diretores, artistas, críticos de cinema, assim os diferentes grupos terão a oportunidade de pesquisar e vivenciar diferentes papéis.
==> A classe deve pesquisar na Internet, bibliotecas, um texto que queiram adaptar A proposta pode ser baseada em SITCOM- os textos de Luís Fernando Veríssimo podem ser boas fontes de consulta.

SIT-COM: Comédia de Situação - Sitcoms normalmente consistem em séries de televisão com personagens comuns onde existem uma ou mais histórias de humor encenadas em ambientes como família, grupo de amigos, local de trabalho. Em geral são gravados em frente de uma platéia ao vivo e caracterizados pelos "sacos de risadas", embora isso não seja uma regra.
Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/sitcom - acesso no dia 29 de março de 08

==> Os grupos deverão organizar-se para apresentar um produto final único, sendo que os críticos devem pesquisar sobre críticas e produzir após a apresentação dos outros grupos.


Comentários
Avaliação:

==> Apresentação pode ser filmada para que depois os alunos assistam e discutam a performance do grupo. É preciso criar um clima favorável às críticas, pois elas devem ser encaradas como construtivas, revendo-se os elementos a serem melhorados.
==> Auto-avaliação dos alunos referentes à participação nas atividades, levando em consideração: envolvimento, divisão de tarefas, cumprimento das tarefas, etc.

Dicas-

- Envolver os alunos na produção do figurino, estratégias de divulgação, cartazes, convites, etc.


Anexo 1: FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Fonte: LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro : Ed. Rocco, 1998.